REGISTROS ARTES • 10/04/2026 6 visitas
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1963 - Tela da Elevação da Vila de São João do Príncipe em 03/05/1802

Descrição
  Título da Obra: Tauhá em 3 de maio de 1802
Autor: Afonso Lopes
Ano de Produção: 1963
Técnica: Pintura óleo sobre tela
Gênero: Pintura histórica / narrativa
Estilo: Figurativo com influência impressionista
Tema: Elevação do povoado de Tauhá à categoria de vila São João do Príncipe
Data do Fato Retratado: 3 de maio de 1802

A pintura “Tauhá em 3 de maio de 1802”, produzida em 1963 pelo artista plástico cearense Afonso Lopes, constitui uma das principais representações visuais da formação histórica do município de Tauá. A obra retrata o momento em que o então povoado de Tauhá foi elevado à condição de vila, passando a denominar-se Vila de São João do Príncipe, marco administrativo que consolidou a presença do poder civil português na região dos Inhamuns.

Executada por encomenda do então prefeito de Tauá, Dr. Júlio Gonçalves Rêgo (1963–1966), a pintura integra o conjunto de iniciativas voltadas à valorização da memória histórica local durante aquele período. Mais do que uma reconstituição factual, o quadro cumpre a função de construir uma narrativa visual sobre as origens institucionais do município.

A composição organiza-se a partir de um eixo central, onde se destaca um palanque elevado com a presença de autoridades civis e militares, trajadas à moda luso-brasileira do início do século XIX. A cena sugere o momento da leitura ou proclamação oficial do ato que elevou o povoado à categoria de vila. A disposição dessas figuras, em posição de destaque e centralidade, reforça a ideia de autoridade e formalidade do ato administrativo.

À esquerda da pintura, a igreja assume papel de grande relevância simbólica. Sua presença indica a estreita relação entre poder civil e religioso na organização das vilas coloniais. Com a porta aberta e a cruz no topo, o templo representa não apenas a fé, mas também a estrutura social e cultural que sustentava a vida comunitária da época.

Ao redor do núcleo central, distribuem-se diferentes grupos sociais. De um lado, homens da elite local e militares observam a cerimônia com postura formal. De outro, o povo — composto por mulheres, crianças, pessoas negras e sertanejos — acompanha o acontecimento, representando a base social que testemunha a institucionalização da vila. A cena evidencia, de forma clara, a hierarquia social característica do período colonial brasileiro.

Outro elemento importante é o cruzeiro posicionado à direita da composição, símbolo recorrente nos espaços públicos das vilas coloniais. Sua presença reforça o caráter religioso da fundação e marca simbolicamente a ocupação e organização do território.

O cenário urbano retratado ainda é incipiente, com casas simples de telhado cerâmico e ruas de terra, indicando um núcleo em formação. A paleta de cores, dominada por tons terrosos e pelo azul do céu, remete à paisagem do sertão, característica marcante da obra de Afonso Lopes.

 

Afonso Lopes, natural de Fortaleza, onde nasceu em 10 de janeiro de 1918, destacou-se como pintor e desenhista com forte ligação temática ao cotidiano nordestino. Ainda jovem, tornou-se bastante experiente no retoque manual de fotografias, atuando em estúdios fotográficos de destaque na época. Paralelamente, dedicava-se ao desenho e à pintura, conquistando reconhecimento no meio artístico cearense ainda no início de sua trajetória.

Em 1945, abandonou a atividade de retocador para dedicar-se exclusivamente às artes plásticas. No ano seguinte, ingressou na Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), passando a participar de importantes eventos, como o Salão de Abril, onde recebeu menções honrosas e chegou a ter sala especial. Ao longo de sua carreira, realizou exposições individuais e coletivas em cidades como Fortaleza, Recife, Brasília e Rio de Janeiro.

Sua produção artística valorizou cenas populares, personagens do sertão e aspectos da cultura regional, além de retratar paisagens, animais e figuras humanas com tons suaves e vibrantes. Também abordou, com sensibilidade, a realidade da seca no Nordeste, tema recorrente em sua obra. Autodidata, desenvolveu um estilo próprio, explorando diferentes técnicas e materiais.

De perfil reservado e profundamente ligado à sua terra, Afonso Lopes manteve uma vida discreta, evitando grandes círculos sociais e permanecendo sempre próximo ao Ceará, mesmo quando viajava. Esse forte vínculo com sua origem marcou sua produção artística e contribuiu para consolidá-lo como um dos nomes mais representativos da pintura regional.

Na obra sobre Tauá, o artista mantém essa sensibilidade, mesmo ao tratar de um episódio histórico, incorporando à cena elementos humanos e sociais que vão além da simples representação oficial, reforçando seu compromisso com a valorização da identidade nordestina.

Embora não haja identificação nominal dos personagens, a pintura trabalha com tipos sociais bem definidos, permitindo ao observador reconhecer os diferentes papéis dentro da estrutura colonial: autoridades, militares, representantes da Igreja e população em geral.

A elevação de Tauhá à condição de vila, em 1802, representou um passo decisivo na organização administrativa da região, permitindo a instalação de instituições como a câmara municipal e o sistema judiciário. Ao registrar esse momento, a obra de Afonso Lopes contribui para a preservação da memória histórica e para a construção da identidade cultural de Tauá.

Mais do que um registro artístico, o quadro se estabelece como documento visual de referência, sintetizando, em uma única cena, os elementos que marcaram o surgimento da vida institucional no município.

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